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CONSTRUÇÕES IDENTITÁRIAS NO GÊNERO PROPAGANDA: EM FOCO A CULINÁRIA E O FOLCLORE NORDESTINOS



Maria Regina BARACUHY Leite (DLCV/UFPB)
Este trabalho é, na verdade, fruto de um projeto de pesquisa nosso que se intitula: DISCURSO, HISTÓRIA E SENTIDO: CONSTRUÇÕES IDENTITÁRIAS EM DIVERSOS GÊNEROS DISCURSIVOS, desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Lingüística (PROLING), no campus 1 da UFPB. A partir deste projeto, estamos discutindo como a mídia nordestina e em particular, a paraibana, está construindo identidades através dos diversos gêneros discursivos que circulam em nossa sociedade materializados em textos. O aporte teórico que utilizamos para fundamentar a análise dos textos é o da Análise do Discurso Francesa (doravante AD), fundada por Michel Pêcheux no final da década de sessenta na França. Para justificar por que escolhemos trabalhar com a questão da identidade, partimos de alguns questionamentos como: O que significa “ser paraibano”? Como a mídia local discursiviza isso? Quais os efeitos de sentido que essas construções identitárias produzem? Quais as relações de poder que se estabelecem no embate entre a manutenção e a transformação, redefinição de identidades no contexto paraibano? Percebemos que a questão da identidade continua sendo amplamente discutida na atualidade, uma vez que não há mais uma identidade fixa, coesa, em torno da qual possamos nos reconhecer enquanto indivíduos sociais, até porque o cenário contemporâneo, midiático e globalizado, torna as mudanças cada vez mais rápidas e constantes. Com o progresso e a expansão das tecnologias de comunicação, diferentes regiões do mundo são postas em interconexão e práticas sociais são constantemente reformadas, re-examinadas à luz das informações recebidas. Em decorrência disso, na modernidade, as identidades, outrora fixas, estáveis, unificadas, são móveis, cambiantes, estão “em processo de construção”. É com esse conceito de identidade enquanto construção discursiva que nós estamos trabalhando em nosso projeto. O problema com o qual nos deparamos e que nos intriga e, ao mesmo tempo, nos motiva a estudar este assunto é o seguinte: sendo a identidade uma construção fragmentária e cambiante, construída nos vários discursos sociais, como é que estão sendo produzidos os processos de identidade nordestina nos vários gêneros discursivos que circulam em nossa sociedade? Stuart Hall (2001: 13) concebe a identidade como um processo cultural, construída nos discursos sociais que circulam em uma dada sociedade. Ele argumenta que a identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar — ao menos temporariamente. Não se pode falar sobre identidade sem falar em alteridade, porque é pela diferença que se constrói a identidade. Desse modo, o conceito de identidade implica “estar em relação a”, porque não há “nós” sem o “outro”. Ou seja, o que nos identifica não é somente o que pensamos que somos, mas o que pensamos que são os outros e como essa alteridade se representa simbolicamente. Por exemplo, no gênero propaganda turística, em relação às comidas típicas do Nordeste, quase todos os textos de propaganda turística exibem como atrativo, os frutos do mar, com ênfase na lagosta. Então, esse poderia ser um dos elementos que do ponto de vista da culinária, nos identificaria enquanto nordestinos, já em relação à bebida, a cachaça nordestina também aparece em destaque, assim como a água de côco, como vemos nos textos de propaganda turística propaganda oficial dos estados de Aracaju e do Ceará.






Toda essa culinária regional que a propaganda exibe, corrobora, está em sintonia com a representação (ideológica) que os textos de propaganda turística sobre o Nordeste querem enfatizar: a representação do paraíso tropical, materializado em imagens que mostram praias com coqueirais, pessoas jovens e bonitas e uma culinária exótica para o turista estrangeiro, com base nos frutos do mar, na cachaça e na água de côco. Entretanto, a propaganda turística paraibana também mostra como destaque o abacaxi, pois somos um dos maiores produtores de abacaxi do Nordeste, assim sendo, essa é uma fruta que particulariza a culinária paraibana em relação à nordestina. Como afirma Thomas Tadeu da Silva (2000: 18): “os anúncios só serão eficazes no seu objetivo de nos vender coisas se tiverem apelo para os consumidores e se fornecerem imagens com os quais eles possam se identificar.” Então para sintetizar poderíamos dizer, no gênero propaganda turística, há uma representação homogênea da culinária nordestina em relação à água de côco e aos frutos do mar, que objetiva a fixação e a manutenção desses traços identitários, porém a propaganda turística da Paraíba nos particulariza com a imagem, em destaque, do abacaxi. Desse modo, a identidade é marcada pela diferença, por isso dizer “o que somos” significa também dizer “o que não somos.” (idem: 82)





Para usar as palavras de Thomas Tadeu da Silva (2000:79): “A mesmidade (ou a identidade) porta sempre o traço da outridade (ou da diferença).” Por isso, a identidade é também relacional, ou seja, só existe em relação a outras identidades possíveis. A afirmação de uma identidade e a marcação da diferença implicam sempre em operações de inclusão e exclusão. Segundo Kathryn Woodward, em um artigo chamado “Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual (2000:18): “todas as práticas de significação que produzem significados envolvem relações de poder, incluindo o poder para definir quem é incluído e quem é excluído”. Como já foi dito, os textos de propaganda turística nordestina enfatizam os frutos do mar como atrativo culinário e geralmente excluem das imagens culinárias, as comidas típicas do sertão. Essa exclusão faz com que os turistas, muitas vezes, se frustrem ao chegarem às capitais litorâneas (por exemplo, João Pessoa e Recife), em busca de frutos do mar e encontrem como culinária típica local, a comida sertaneja, como a tapioca, a buchada, o arrumadinho, etc. A nossa identificação local é com a culinária sertaneja, entretanto, o turista se identifica com as imagens dos frutos do mar exaustivamente representados nos textos de propaganda. Embora saibamos que o signo lingüístico é um sinal, sempre há a ilusão referencial, ideológica, de se ver no signo, a presença do referente empírico. Conforme Stuart Hall, em seu livro A identidade cultural na pós-modernidade (2001): É precisamente porque as identidades são construídas dentro e não fora do discurso que nós precisamos compreendê-las como produzidas em lugares históricos e institucionais específicos, no interior de formações e práticas discursivas específicas, por estratégias e iniciativas específicas. Outro aspecto que observamos na construção de identidades em gêneros da mídia é que ela é pautada por silenciamentos e estereótipos. O Nordeste, como sabemos, é uma região que apresenta uma enorme diversidade de manifestações culturais, dentre elas, o folclore. No gênero propaganda turística, a ênfase recai na Festa de São João. Na propaganda turística do Maranhão o que se sobressai, em toda a materialidade verbo-visual, é o Boi- Bumbá. O enunciado, em letras maiúsculas, no início do texto, diz o seguinte: “O BRASIL TEM MUITAS FESTAS DE SÃO JOÃO. O MARANHÃO TEM TODAS ELAS.” E encerra com um convite: “Venha sentir de verdade o que é o São João do Brasil.” Na Paraíba, o enfoque maior é dado ao forró e a quadrilha juninas. No interior do estado, a cidade de Campina Grande anuncia-se na mídia, através de uma construção hiperbólica, que possui: “0 Maior São João do Mundo”.

Esta construção simbólica e discursiva marca a identidade do lugar, distinguindo-o em relação a outros lugares onde também acontece a festa junina, como por exemplo, em relação a Caruaru, no estado de Pernambuco e em relação ao São João Maranhense. Esse enunciado, portanto, só tem seu sentido na cadeia de significação formada por essas outras identidades regionais. Além disso, a mídia tende a construir identidades por meio de estereótipos, materializados em imagens e enunciados verbais que incessantemente retornam nos textos publicitários, a fim de fixar, manter, estabilizar essas identidades em detrimento de outras. Dentre as várias manifestações folclóricas existentes no Nordeste, citemos o xaxado, o maracatu, o côco-de-roda, entretanto, na maioria das propagandas turísticas, Pernambuco reivindica para si a identificação com o frevo, a Paraíba se identifica pelo forró e quadrilha juninas e o Maranhão pelo Boi-bumbá, o que ratifica a afirmação de que toda construção identitária é um processo discursivo que se caracteriza por exclusões (que implicam apagamentos, silenciamentos) e relações com a alteridade (que produzem a diferença). As danças exibidas no discurso da propaganda, por conta da ideologia capitalista do lucro com o turismo, exibem sempre uma imagem pasteurizada, com moças e rapazes jovens e bonitos, a fim de atrair o público-alvo. Enfim, trabalhar com identidade é algo bastante motivador, uma vez que há uma relação necessária, constitutiva entre identidade, discurso e memória, assim, através da análise do discurso da mídia, podemos resgatar toda uma tradição cultural, como foi exposto aqui em relação à culinária e às manifestações folclóricas, bem como entender melhor quem somos e por que somos assim e não de outra maneira.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 5 ed., Rio de Janeiro: DP&A, 2001. SILVA, Tomaz Tadeu (org.). Identidade e Diferença: a perspectiva dos estudos culturais. 2ed., Petrópolis, RJ: Vozes, 2003. WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. IN: SILVA, Tomaz Tadeu (org.). Identidade e Diferença: a perspectiva dos estudos culturais. 2ed., Petrópolis, RJ: Vozes, 2003.

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TRAVESTIS E TRANSEXUAIS: QUE LUGARES OCUPAM NA SOCIEDADE?

Danúbia Barros Cordeiro – PROLING/ UFPB
Maria Regina Baracuhy Leite – PROLING/ UFPB
O discurso não é simplesmente o que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas o porquê, o pelo quê lutamos, o poder que desejamos.
Michel Foucault
Que imagem a sociedade faz dos homossexuais, em especial os transexuais e os travestis? Até que ponto essas imagens prejudicam ou favorecem esse grupo? Quais são as construções identitárias produzidas a partir dessas imagens? As discussões aqui apresentadas procuram problematizar as questões acima levantadas com a finalidade de verificar o jogo de imagens construído em nossa sociedade sobre os grupos de travestis e transexuais e a construção da identidade destes através de tais imagens. A investigação se dará sobre a nota intitulada TRANSCONNECTION, publicada no jornal Abalo.com. br, edição nº 73 - ANO XI, 2007, Rissi Editora Gráfica LTDA. A análise acerca desta nota se dará sob a perspectiva da Análise do Discurso de orientação francesa. A Análise do Discurso (AD) nasceu como campo do saber no final dos anos 60, fundada duplamente por Jean Dubois e Michel Pêcheux. Apesar de algumas divergências teóricas, tinham, ambos, como objeto de estudo, o discurso, bem como estavam ligados ao Marxismo e à política. Além disso, encontravam-se envoltos em uma conjuntura política e intelectual da França e se preocupavam com a luta de classes; daí pregarem a interpretação textual levando em conta os sujeitos sociais e a História. Contudo, as propostas apresentadas pelos fundadores apresentavam diferenças, o que influenciou no caminho percorrido pela Análise do Discurso. Dubois, como lexicólogo, vê a AD como continuação da Lingüística e apresenta um modelo sociológico imanentista para análise de textos. Por outro lado, Pêcheux apresenta o quadro epistemológico da AD, a partir da problematização de três áreas das Ciências Humanas e Sociais. Desse modo, ele faz uma crítica à Lingüística Estrutural, a partir do corte saussureano, que ao eleger a língua como objeto de estudo, exclui o sujeito e a História; questiona a Psicanálise freudiana, criticando a noção de sujeito psicológico, individual, e ainda propõe uma releitura do Materialismo histórico de Marx, questionando a noção de ideologia como “falsa verdade”. Pêcheux não só critica esses campos do saber, mas rearticula e re-elabora conceitos. É através dessas problematizações e rupturas teóricas que surge a Análise do Discurso (AD), caracterizando-se como um campo transdiciplinar desde a sua fundação. A AD tem como objeto de estudo, o discurso, entendido como processo em que se articula uma materialidade lingüística e uma materialidade histórica (sócio-ideológica). Para Orlandi (2005), a investigação na AD é feita sobre a língua em seu aspecto semântico, enquanto valor simbólico, como parte do homem, da sociedade e de sua história. Não se pretende, com essa construção teórica, encontrar a “verdade”, e sim, fazer uma reconstrução das falas que propiciaram uma “vontade de verdade” em dado momento histórico. O conceito de discurso que será adotado neste trabalho é o definido por Pêcheux (1990, p. 82) como “efeito de sentidos entre locutores”, sendo estes entendidos não como indivíduos empíricos, mas como “lugares determinados na estrutura de uma formação social”. Sendo assim, o sujeito resultante desse conceito assume uma função social, ocupando seu lugar na sociedade a partir de certas normas de conduta pré-estabelecidas, ou seja, usando o exemplo dado por Pêcheux (1990, p. 82), interessa, discursivamente, os lugares sociais ocupados pelo “patrão” ou pelo “funcionário” em dada empresa, porque é a partir desses lugares ou posições que seus dizeres se tornam possíveis socialmente. A aplicação desse conceito à nota do jornal analisada resulta na observação de imagens construídas por indivíduos ou instituições do que seria um travesti e/ou transexual e de como deve ser o comportamento destes em ambientes públicos (banheiros e provadores), os quais se configuram em locais instituídos pelos Aparelhos Ideológicos de Estado (prefeitura, justiça, igreja, escola, família, etc.), na perspectiva de Althusser (1985) como entidades que disseminam a ordem estabelecida (ideologia dominante) para a sociedade, posto que determinam e exigem comportamentos adequados, por exemplo, homens nos banheiros e provadores masculinos e mulheres nos femininos. Os sujeitos (A e B) assumem diferentes posições sociais (“lugares de fala”) e isso ocorre no jogo das formações imaginárias que permeiam todo o discurso, determinando a imagem que A faz de si e de B e a imagem que B faz de si e de A. É importante observar que o que interessa nessas relações imaginárias não é o fato em si, mas a projeção da posição social e a construção de sentidos no discurso. Quanto aos sentidos, Pêcheux (1995) diz que eles “não existem por si mesmo”, mas que são construídos pelas posições ideológicas marcadas sócio-historicamente, ou seja, os sentidos mudam de acordo com os “lugares de fala”. Sendo assim, é possível dizer que a ideologia se materializa no discurso e este na língua, portanto, não se pode falar em sujeito e sentido sem falar em ideologia. Ainda segundo Pêcheux (1995), os indivíduos são interpelados em sujeitos-falantes por meio das formações discursivas (FDs) que, por sua vez, materializam as formações ideológicas (FIs). A noção de formação ideológica utilizada neste trabalho refere-se à concebida por Pêcheux e Fuchs (1990: p. 166): [...] constitui um conjunto complexo de atitudes e de representações que não são nem ‘individuais’ nem ‘universais’ mas se relacionam mais ou menos diretamente a posições de classes em conflito umas com as outras. Sendo assim, as formações ideológicas se configuram como elementos de intervenção no contexto ideológico de uma formação social num determinado momento, o que resulta na luta de classes. A partir deste conceito, Pêcheux e Fuchs (1990, p. 166-167), dizem que as formações ideológicas abarcam, necessariamente, uma ou mais formações discursivas “interligadas que determinam o que pode e deve ser dito a partir de uma [...] certa relação de lugares no interior de um aparelho ideológico, e inscrita numa relação de classe”. Portanto, toda e qualquer formação discursiva pressupõe a existência de determinadas condições de produção específicas, assim como, estão vinculadas às formações imaginárias enquanto conjunto de representações sociais. O que se quer dizer com isso é que os sujeitos são interpelados pela ideologia por meio das formações ideológicas que remetem, em cada momento histórico da luta de classes, a uma memória social, a partir da qual são efetivadas as condições de produção. A memória social, as formações ideológicas e as formações discursivas estão diretamente ligadas aos jogos de imagens construídos nas relações sociais. Por exemplo, as imagens sociais acerca dos homossexuais na nota do Jornal Abalo.com, remetem à uma memória social discursiva, às formações ideológicas e à materialização destas em discurso a partir da noção do que “pode e deve ser dito” na sociedade. O que provoca a luta de classes, posto que a classe excluída (homossexuais) está em contradição com as regras da ideologia dominante, a qual cerceia a memória dos sujeitos não-excluídos, gerando preconceitos. Isto confirma que toda sociedade é organizada e controlada por procedimentos reguladores, tendo como finalidade controlar e selecionar os acontecimentos e os dizeres por meio de relações de poder. Os discursos são construídos pelos sujeitos a partir de diversas formações discursivas, no entanto, os sentidos de seus enunciados estão diretamente relacionados aos lugares sociais que estes e que seus interlocutores ocupam. O que se confirma que o dizer de Barbosa (2000, p. 140) “A possibilidade de os sentidos circularem de uma formação para outra justifica, pois, a pluralidade de significações”. Portanto, na seguinte nota do jornal Abalo.com.br, pretende-se verificar as diversas imagens que os protagonistas fazem de si e do outro e observar, nos relatos apresentados na nota, a diversidade das formações discursivas e, a partir destas, a construção de identidades. Antes de tratar do contexto dos relatos e as imagens produzidas pelos personagens, faz-se necessária a explicitação do que seria transexual e travesti: - Transexual é um indivíduo que possui uma identidade de gênero oposta ao sexo designado (normalmente no nascimento). Homens e mulheres transexuais fazem ou pretendem fazer uma transição de seu sexo de nascimento para o sexo oposto (sexo-alvo) com alguma ajuda médica (terapia de re-designação de gênero) para seu corpo. A explicação estereotipada é de "uma mulher presa em um corpo masculino" ou vice-versa, ainda que muitos membros da comunidade transexual, assim como pessoas de fora da comunidade, rejeitem esta formulação. Eles sempre usam termos para sua orientação sexual que estejam relacionados com o gênero final. Por exemplo, alguém designado como do gênero masculino no nascimento mas que identifica-se a si como uma mulher, e que é atraída tão somente por homens, ira identificar-se como heterossexual, não como gay. (WIKIPÉDIA – Enciclopédia livre, 2007). - Travesti era originalmente alguém que se vestia com roupas do sexo oposto para se apresentar em shows e espetáculos, mas essa prática passou a designar o comportamento das drag queens (ou transformistas). O termo travesti hoje em dia se refere principalmente à pessoa que apresenta sua identidade de gênero oposta ao sexo designado no nascimento, mas que não almeja se submeter à Cirurgia de Redesignação Sexual - CRS. Travestilidade, enquanto transgeneridade, é uma condição identitária e não uma orientação sexual. Portanto, as pessoas que se autodenominam travestis podem se identificar como homossexuais, heterossexuais, bissexuais ou assexuais. (WIKIPÉDIA – Enciclopédia livre, 2007). A partir das definições apresentadas, serão analisadas as seguintes formações imagéticas: Rio de Janeiro · Imagem que a mulher (cliente da loja em questão) faz de si: A mulher não só se vê como detentora do direito de freqüentar o provador, por ser do sexo feminino, como também de requerer, por via judicial, uma indenização motivada pelo acesso de um(a) travesti ao provador. A relação de poder se dá em virtude na formação ideológica de que o heterossexual está na ordem da normalidade, enquanto o homossexual é o diferente, o “anormal”. · Imagem que a mulher faz da loja: A imagem que a mulher constrói da loja é de um local público, contudo, não inclui aí os homossexuais (excluídos), por isso sua indignação, por sentir sua intimidade e privacidade invadida, uma vez que dividiu seu espaço com o outro diferente, a partir da permissão ao acesso dada pela loja ao travesti. · Imagem que a mulher faz do(a) travesti: De acordo com o relato apresentado pela mesma, alegando que a travesti e suas amigas estavam se comportando de maneira inadequada, a imagem que a mulher tem do(a) travesti é de um indivíduo que quebra as regras da sexualidade e que apresenta um comportamento típico de exagero e perversão. Ela o(a) vê como excluído(a), como “anormal”. · Imagem que a mulher faz da justiça: Apesar de saber que a justiça e as leis são para todos, a mulher acredita ter mais acesso a esta em virtude de sua condição heterossexual, por estar dentro da “normalidade” e de acordo com as “regras” socialmente propostas. · Imagem que a loja faz de si: A Riachuelo sabe que tem uma clientela considerável, pois consegue agradar, com seus produtos e com a variação dos preços atribuídos, a diversas classes sociais e diversidade sexual, assim, a imagem que a loja faz dos clientes não está ligada a questões raciais ou sexuais, e sim capitalistas, ou seja, vê os indivíduos como consumidores. · Imagem que a loja faz do(a) travesti: Ao permitir sua entrada no provador feminino (por, provavelmente, estar comprando roupas femininas), a loja o(a) vê como cliente (consumidora), respeitando sua condição e procurando atendê-lo(a), na medida do possível (por saber de sua sexualidade original), adequadamente, afinal, o que lhe interessa é a venda. · Imagem que a loja faz da mulher: Também a vê como cliente, procurando atendê-la da melhor maneira possível, no entanto, essa imagem é quebrada pela mulher ao se voltar contra a loja, passando, então, a ser um incômodo para a loja como um todo e para os demais clientes. · Imagem que o(a) travesti faz de si: Mesmo tendo uma condição original masculina, este(a) não se vê nem se sente como tal, não é à toa que procura ser atendido(a) no provador feminino e, conhecendo as regras impostas pela sociedade, procura antes de entrar no provador, a autorização da gerência. Apresentando um comportamento “característico”, socialmente falando, de uma mulher discreta. · Imagem que o(a) travesti faz da loja: Este(a) vê a loja como um lugar público, procurando, agir de maneira adequada, apesar de ser, por sua condição, uma pessoa que socialmente causa polêmica por estar fora do padrão de “normalidade” instituída socialmente, por isso, pede autorização a gerência para ter acesso ao provador feminino, sabendo que a loja tem clientes com formações diversas, mas que também compunha este quadro. · Imagem que o juiz faz do(a) travesti: Enquanto autoridade jurídica e conhecedor do princípio de igualdade, o juiz tem a imagem de uma pessoa discreta, educada e que não infringiu nenhuma lei. Nova York/ EUA · Imagem que a transexual Helena Stone faz de si: A trans mesmo sendo presa três vezes, se vê uma cidadã digna de seus direitos, o que a levou a continuar protestando e lutando pelo direito de freqüentar banheiros femininos, revelando, portanto, a identidade feminina que assumia. · Imagem que a transexual Helena Stone faz da rede de metrô: Vê o local como qualquer outra pessoa, um ambiente público, que deve atender a todas as demandas sociais, independente da condição sexual e, que este local, não só não aceitava seu acesso aos banheiros femininos, como também não disponibilizava um banheiro voltado ao público gay, por isso sua resistência. · Imagem que a rede de metrô MTA faz de si: Num primeiro momento, se mostra de um local público, controlado pelos Aparelhos Ideológicos de Estado, regulado pelo discurso dominante; num segundo momento, apresenta uma preocupação com os direitos humanos, aceitando tanto o acesso das trans aos banheiros femininos como o pagamento de uma indenização a trans Helena por danos morais, por lhe ter sido negado esse direito várias vezes. · Imagem que a rede de metrô MTA fazia da transexual Helena Stone: A via não apenas como um homem que insistia em fazer uso do banheiro feminino, mas também como um excluído socialmente, que infringia as regras de conduta sociais, o que resultava nas prisões. · Imagem que a rede de metrô MTA faz da transexual Helena Stone atualmente: Após os protestos de Helena, a rede MTA não apenas aceitou seu acesso ao banheiro feminino, como também lhe pagou uma indenização por danos morais, o que mostra um reconhecimento de um direito da trans, antes de enxergá-la como homem ou mulher, a vê como cidadã. Recife · Imagem que a Administração do Terminal Integrado de Passageiros – TIP e que os policiais fazem de si: A TIP se apresenta como órgão público e os seguintes a serviço de uma instituição, ambos se apresentam engajados na defesa pelos direitos e pela segurança social de quem quer que seja. · Imagem que a Administração do Terminal Integrado de Passageiros – TIP e que os policiais fazem dos(as) travestis: Não fica claro nenhuma imagem feita acerca de sua identidade ou sexualidade, no entanto, há uma preocupação com a segurança dessas pessoas, o que demonstra um respeito pelos direito humanos, independente de sua sexualidade. · Imagem que Pamella Anderson faz de si: Pamella assume uma identidade feminina, como se pode ver em seu e-mail (Pamellatransex) e nas palavras dirigidas a ela (“Eu mesma [...]”). Ela, ainda, se mostra engajada na luta pelos direitos da diversidade sexual. · Imagem que Pamella Anderson faz dos travestis e transexuais: Pamella as vê como meninas, mulheres, com direitos de ir e vir como qualquer outro cidadão, mas que, na maior parte das vezes, são discriminados, quanto não violentados. · Imagem que Pamella Anderson faz do leitor: Ao relatar os acontecimentos, Pamella demonstra uma preocupação em deixar claro para o leitor as conquistas alcançadas pelos grupos de trans, seja com o intuito de animá-lo frente aos pontos ganhos, seja para convencê-lo da necessidade de multiplicação de atitudes como estas. Em um determinado momento ela questiona o leitor acerca de um possível posicionamento contra o travesti da primeira cena, mas logo mostra para este que o travesti agiu corretamente, isto mostra que Pamella não tem certeza da postura do leitor diante dos assuntos abordados. Conclusão: As formações discursivas irão permitir uma diversidade de sentidos a partir dos “lugares de fala” e das formações imaginárias que designam o lugar que os sujeitos se atribuem a si mesmo e aos outros. Com isso, é possível verificar nos mecanismos da formação social as normas de projeção da posição social no discurso, as quais definem as relações entre as situações e as posições, ou seja, não é do travesti ou transexual enquanto indivíduo que se está falando, mas da imagem que a sociedade faz desses sujeitos. Como foi observado, as imagens construídas sobre as figuras das travestis e transexuais são distintas e até contrárias. Mas, o que predomina é o discurso do preconceito, seja este em sua materialidade (expresso pelos interlocutores), seja na luta contra essa materialidade (expresso pelos grupos homossexuais na nota do jornal, inclusive pela autora). É a partir desses preconceitos que a identidade homossexual e suas ramificações (travestis, transexuais, lésbicas, etc.) vêm se construindo, por meio de lutas nas causas “homo”, de resistências, de intervenções na política e no jurídico, ou em outros casos pelo enrustimento, pelo medo da auto-aceitação, resultando, nos indivíduos gays, características identitárias que lhes são próprias e que incomodam a sociedade por sua diferença. Por isso, a aceitação dos grupos homossexuais se torna tão “difícil”, pois estes fazem uso de sua sexualidade da maneira distinta da tida como “normal”, da instituída pela ideologia dominante. Essa “normalidade” que aparece nos discursos representa as formações discursivas oriundas dos Aparelhos Ideológicos (igreja, família, justiça, etc.), os quais mantém com os sujeitos uma relação de poder, ditando regras, criando normas que devem ser seguidas, do contrário os indivíduos sofrem sansões, e é o que acontece com os gays. Portanto, é a partir dessas interdições ideológicas, da luta de classes, das relações de poder, dos efeitos de sentido e dos jogos de imagens entre os interlocutores que os grupos homossexuais vão construindo suas identidades e têm suas identidades construídas através da noção do que pode e deve ser dito, se constituindo como uma classe excluída socialmente. Isto confirma o controle social por meio de procedimentos reguladores, que organiza e seleciona os fatos e os dizeres através das relações de poder.
Referências:
ALTHUSSER, Louis. (1985). Aparelhos ideológicos de Estado. 2. ed. Rio de Janeiro: Graal. ANDERSON, Pamella. (2007). Banheiros públicos e provadores para trans? In: Jornal Abalo. com.br, Ano XI, Nº 73, São Paulo: Rissi Gráfica LTDA.
BARBOSA, P. L. N. (2000). Produção de texto e subjetividade: o jogo de imagens In: GREGOLIN, M. do Rosário. Filigranas do discurso: as vozes da história. Araraquara: FCL/ Laboratório Editorial / UNESP; São Paulo: Cultura Acadêmica.
GREGOLIN, M. do Rosário; BARONAS, R. (orgs.). (2001). Análise do Discurso: as materialidades do sentido. São Carlos, SP: ClaraLuz.
______. (2004). Foucault e Pêcheux na construção da análise do discurso: diálogos e duelos. São Carlos, SP: ClaraLuz.
ORLANDI, E. (2005). Análise de discurso: princípios e procedimentos. 6. ed. Campinas, SP: Pontes.
PÊCHEUX, M. (1990). Análise Automática do Discurso In: GADET, F.; HAK, T. (Orgs.) Por uma introdução à obra de Michel Pêcheux: uma introdução à obra de Pêcheux. Trad. bras. Bethânia S. Mariani. Campinas, SP: Unicamp.
______; FUCHS. C. (1990). A PROPÓSITO DA ANÁLISE AUTOMÁTICA DO DISCURSO: atualização e perpectivas (1975) In: GADET, F.; HAK, T. (Orgs.) Por uma introdução à obra de Michel Pêcheux: uma introdução à obra de Pêcheux. Trad. bras. Bethânia S. Mariani. Campinas, SP: Unicamp.
______. (1995). Semântica e discurso: uma crítica a afirmação do óbvio. Trad. Eni P. Orlandi. [et al.]. Coleção Repertórios. 2. ed. Campinas, SP: Editora da UNICAMP.
REVISTA SEXY. Publicação do mês de fevereiro. 302. ed. São Paulo: Rickdan, 2005. WIKIPÉDIA, Enciclopédia livre. Transexualidade. Modificado pela última vez Sábado, 14 de Abril de 2007. Disponível em: . Acesso em: 21 de abril de 2007.

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CULINÁRIA E IDENTIDADE NAS REDES DA PROPAGANDA TURÍSTICA


Edileide de Souza Godoi (PROLING/UFPB)
Maria Regina Baracuhy Leite (PROLING/ UFPB)

INTRODUÇÃO
Este trabalho é um recorte do meu projeto de pesquisa em nível de Mestrado, cujo título é “Memória e Identidade no Discurso da Culinária Paraibana” e está vinculado ao programa de Pós-graduação em Lingüística PROLING/UFPB. O objetivo desta pesquisa é analisar como vêm sendo construídos os processos de identidade do povo paraibano nos textos de propagandas em que circulam o discurso culinário. Stuart Hall, Tomaz Tadeu da Silva, entre outros que trabalham com identidade numa perspectiva cultural e discursiva, concebem que para discutir a identidade de um sujeito, é preciso inseri-lo em um contexto sócio-histórico cultural que influencia e organiza a produção do seu discurso sob condições ideológicas marcadas por esse contexto. Em vista disso, nossa hipótese de trabalho é que as identidades são construídas ao longo do tempo no interior de formações e práticas discursivas específicas. Assim, é por meio do discurso midiático, sendo a propaganda turística um de seus gêneros textuais, que pretendemos compreender até que ponto nos representamos enquanto indivíduos inseridos em um lugar determinado num dado momento histórico. A mídia, sendo um instrumento de manipulação social que integra nosso cotidiano “participa ativamente, na sociedade atual, da construção do imaginário social, no interior do qual os indivíduos percebem-se em relação a si mesmos e em relação aos outros”(GREGOLIN, 2003,p. 97) Desenvolvemos nossa pesquisa no intuito de atingir os seguintes objetivos: discutir como o discurso da culinária paraibana, nos textos de propaganda turística, apresenta traços identitários do povo paraibano, a partir de duas formações discursivas distintas: uma que destina especificamente aos turistas nordestinos e uma outra, cujo destinatário é o turista brasileiro (de outras regiões do país, que não a NE) e o internacional. O corpus escolhido para análise é a propaganda encomendada à revista Engenho da Gastronomia pelo governo do estado da Paraíba no ano de 2004. Essa revista é publicada bimestralmente no estado de Pernambuco e circula em todo Nordeste, Rio de Janeiro, São Paulo e em cinco cidades de Portugal, sendo distribuída em bancas, hotéis, restaurantes. Através de uma parceria com a Infraero, ela é encontrada em locais de desembarques de vôos cuidadosamente escolhidos. Sendo assim, o público-alvo do citado periódico se compõe tanto de turistas regionais, como nacionais e até mesmo internacionais.
1. DISCURSO E SENTIDO NA ANÁLISE DO DISCURSO
Para o fundador da AD francesa, Michel Pêcheux, a Lingüística Estrutural de base imanentista não dava conta dos processos de construção de sentido do discurso, uma vez que este ultrapassa os limites da Lingüística, pois necessariamente inclui a relação de um sujeito com a sociedade em que ele vive. Como explica a professora Rosário Gregolin (2001, p.12): Assim, partindo de uma relação necessária entre o dizer e as condições desse dizer, a análise do discurso proposta por Pêcheux insere a exterioridade como elemento constitutivo dos sentidos, exigindo, portanto, um deslocamento teórico, de caráter conflituoso, que vai recorrer a conceitos exteriores ao domínio de uma lingüística imanente para dar conta de uma análise de unidades mais complexas da linguagem. Portanto, o discurso se materializa na língua, mas só possui efeito de sentido quando é situado social e historicamente, isso significa que se faz necessário buscar os sentidos numa relação intradiscursiva ( da ordem da língua) com a interdiscursiva ( da ordem da História). (GREGOLIN, 2001). É importante frisar que os sentidos não ocorrem de maneira linear em nossa sociedade, sendo eles históricos não são apreendidos em sua totalidade, em um único texto, visto que se diz a partir de um já dito, isto é, um texto retoma outro que se repete em um outro e assim sucessivamente. O sentido não está no texto, mas na relação que ele mantém com seu produtor, seus leitores e outros textos (intertextualidade), com outros discursos (interdiscursividade). Os sentidos não são únicos, eles são circulantes e dispersos. Foucault (2005, p.28) diz que: E preciso estar pronto para acolher cada momento do discurso em sua irrupção de acontecimento, nessa pontualidade em que aparece e nessa dispersão temporal que lhe permite ser repetido, sabido, transformado, apagado até nos menores traços, escondido bem longe de todos os olhares, (...) não é preciso remeter o discurso a longínqua presença da origem: é preciso tratá-lo no jogo de sua instância. Levando em conta que o analista do discurso, em relação à compreensão e interpretação, não pode buscar os sentidos do texto apenas na superfície lingüística, mas compreender como ele funciona, acompanhado o trajeto em que os sentidos são estabelecidos em sua materialidade lingüística histórica, percebemos que os enunciados produz seus efeitos de acordo com as formações discursivas em que são produzidos. De acordo com Michel Foucault (2005) os sentidos do discurso são perceptíveis se compreendermos sempre como uma prática que relaciona a língua com “outras práticas” no campo social. Isso significa dizer que o discurso se materializa na língua, mas só produz efeito de sentido quando situado social e historicamente. Para compreender os efeitos de sentidos do discurso, é preciso “buscá-lo” nas paráfrases, polissemia, nos interdiscursos, nos dizeres que o antecedem, que, por sua vez estão relacionados à memória e à história e têm como efeito, o apagamento da palavra do outro, para que ao se tornar própria de quem está enunciando.Tudo que é dito por um sujeito só é possível devido à existência de dizeres anteriores a ele. Entretanto, vale salientar que há uma relação necessária entre o dizer e as condições de produção desse dizer. Na AD, o discurso é pensado como um “processo de produção de sentido” determinado pelo tecido sócio-histórico que o estabelece. Em vista disso, analisaremos a propaganda turística enfatizando o discurso da culinária paraibana para verificar os saberes discursivos pré-existentes (pelo viés interdiscursivo) que se inscrevem além da materialidade lingüística, pois os sentidos não estão nas palavras, mas aquém e além delas, sendo preciso buscá-lo em suas condições de produção, estabelecendo as relações que eles mantém com a memória. Para Eni Orlandi “as palavras falam com outras palavras. Toda palavra é sempre parte de um discurso. E todo discurso se delineia na relação com outros: dizeres presentes e dizeres que se alojam na memória”. Enfim, considerando o texto não apenas como um conjunto de palavras frases ou proposições, mas como um lugar onde se articula o lingüístico e o sócio-histórico, a AD francesa procura compreender a produção de sentidos sem ater-se apenas em aspectos estruturais, ultrapassando assim os limites do texto e passando a considerar a exterioridade (aspectos sócio-histórico-ideológicos) relevantes para a construção dos sentidos. Eni Orlandi salienta que: “A exterioridade se inscreve no próprio texto e não como algo lá fora, refletindo nele. Não se parte da história para o texto – avatar da análise de conteúdo -, se parte do texto enquanto materialidade histórica” (1996, p. 55).
2 .IDENTIDADE E ALTERIDADE NA PRODUÇÃO DO DISCURSO CULINÁRIO PARAIBANO
De acordo com Tomaz Tadeu (2000), parece fácil definir identidade: “sou paraibano”, “sou jovem”, “sou negro”, “sou homem”. A identidade, assim vista, parece ser apenas positiva, uma característica autônoma, tendo como referência a si própria, pois quando digo que “sou paraibano” parece que estou fazendo referência a uma identidade que se esgota em si mesma, entretanto só posso fazer essa afirmação porque existem outras pessoas que não são paraibanas. A afirmação “sou paraibano” faz parte de uma cadeia extensa de expressões negativas: “não sou pernambucano”, “não sou cearense”, “não sou baiano”, e assim por diante. Na perspectiva de Marisa Grigolleto em seu artigo Leitura sobre a identidade: contingência negativa e expressão (2006, p. 15). As identidades são construções social e culturalmente situadas, em oposição a uma suposta essência subjetiva que engendraria a identidade de cada individuo. Como conseqüência dessa construção, entende-se que as identidades são formadas na sua construção inescapável e necessária com a alteridade. Assim, compreender a identidade faz-se necessário entendê-la em sua relação com a alteridade, construída pela dicotomia nós/ele, pela marcação de diferença. “A identidade é relacional e para existir depende de algo de fora dela de uma identidade que ela não é, que difere de sua própria identidade, mas que fornece condições para que ela exista” (Kathryn Woodward, 2000, p.9), portanto ser um paraibano é ser um não-baiano, um não-pernambucano, um não- cearense. Para o estudioso Stuart Hall (2000), há duas formas diferentes de se pensar a identidade cultural. A primeira está na busca de recuperar a “verdade” sobre o passado na unicidade de uma história e de uma cultura partilhadas; a segunda é uma questão tanto de “tornar-se” quanto de “ser”, isto é, de reconhecer que ao reivindicar uma identidade, nós a reconstruímos, uma vez que, o passado é ressignificado no presente.Ele concebe ainda que embora a identidade seja construída por meio da diferença, não há rigidez quanto à oposição na dicotomia nós/ele.Por exemplo, tanto o paraibano quanto o recifense são nordestinos, embora o paraibano esteja inserido em práticas sociais diferentes das do pernambucano. Daí HALL assumir uma posição que dá ênfase à fluidez da identidade. Isso significa pensá-la sempre como um processo em construção, sendo moldada conforme as práticas sociais e formações discursivas a que os sujeitos estão submetidos. Em suma, pensar a identidade de um sujeito é pensar esse sujeito em um dado momento sócio-histórico, onde seu discurso é produzido sob condições ideológicas determinadas, ou seja, para que o dizer de um sujeito tenha sentido, é preciso que se inscreva no interior de práticas e formações discursivas específicas, estando elas sujeitas, constantemente, a um processo de mudança e de transformação. Nas palavras de Stuart Hall, em seu artigo Quem precisa de identidade? (2003, p.109) É precisamente porque as identidades são construídas dentro e não fora do discurso que nós precisamos compreendê-las como produzidas em lugares históricos é institucionais específicos, no interior de formações e práticas discursivas especificas, por estratégias e iniciativas específicas. Entretanto para trabalhar os enunciados da gastronomia que nos representam enquanto sujeito paraibano, precisamos reconhecer as regularidades desses enunciados que nos insere em um dado momento sócio-histórico dentro de uma formação discursiva específica, que por sua vez, forma um complexo de regras que funda a unidade de um conjunto de enunciados. Para Pêcheux (1995), o sujeito, ao dizer nos processos discursivos, se representa como sujeito inserido em lugares determinados na estrutura de uma formação social. Essa representação é regulada por regras sociais e é por meio dessas regras que o sujeito se identifica com seu lugar, seus costumes, sua cultura. Sendo esta segundo Santos (1994), a expressão da totalidade das características de um povo. E nas manifestações culturais que encontramos muitos dos traços identitários de um povo: na arte, na religião, na dança, na culinária, etc., pois a cultura faz parte da história de uma sociedade, e é justamente através da cultura, que podemos mostrar as particularidades de um grupo social No entanto, nossa análise pretende trabalhar alguns aspectos culturais, não com intuito de fazer um resgate de nossa cultura, mas entender até que ponto nos representamos enquanto sujeitos sociais.. Invocar uma origem que residiria num passado histórico não seria suficiente na construção das identidades, uma vez que, elas não são estáveis, fixas, mas maleáveis e cambiantes, entretanto “as identidades têm a ver com utilização dos recursos da cultura para a produção não daquilo que nós somos, mas daquilo no qual nos tornamos” (HALL, 2000, p.109). Levando em conta que “as identidades são fabricadas por meio da marcação da diferença. Essa marcação (...) ocorre tanto por meio de sistemas simbólicos de representação quanto por meio de formas de exclusão social” (Kathryn Woodward, 2000, p.39). Logo sendo nosso trabalho voltado para culinária fica estabelecido que a identidade aqui é construída por meio de marcação de diferença simbólica, que por sua vez, é definida, ao menos em parte, por meio de sistemas classificatórios, ou seja, “um sistema classificatório aplica um principio de diferença a uma população de uma forma tal que seja capaz de dividi-la em ao menos dois grupos opostos – nós/eles.” (Woodward, 2000, p.40), definindo, por exemplo que é incluído e quem é excluído, em vista disso,, o social e o simbólico, embora refira-se a dois processos distintos, são necessários para a construção e manutenção das identidades, pois é por meio da diferenciação social que as classificações da diferença são vividas socialmente É sob o enfoque da identidade pela alteridade porque não há nós sem o outro, que analisaremos a culinária paraibana “em relação” à culinária de outros estados do país. Entretanto, partindo da dicotomia nós/ eles, vários questionamento poderão ser feitos em relação à culinária, por exemplo: como vou me representar, ou me identificar através de minhas opções culinárias? Como me posiciono em relação à culinária do Outro? O estudioso da gastronomia paraibana, Wills Leal em sua obra Conquistando o turista pela boca (2006), afirma que de fato não há uma cozinha tipicamente paraibana, pernambucana ou alagoana, etc. Há, sim uma cozinha nordestino- paraibana, nordestino-cearense, nordestino-alagoana, etc. Em vista disso, logo surge um questionamento: como vou identificar o “homem” paraibano através de sua culinária se não há uma cozinha tipicamente paraibana? No entanto, Wills Leal (2006) afirma ainda que, embora não exista uma comida tipicamente paraibana, não quer dizer que um grupo social não se identifique com os produtos com os quais consome só porque esse mesmo produto é consumido em outros estados nordestinos, pois os sistemas simbólicos com os quais as pessoas se identificam podem ser mais representativos para uns que para outros. Considerar que alguns produtos sejam símbolos de representação de um grupo não quer dizer que esses produtos não possam ser consumidos ou representar outros grupos diferentes, por exemplo, o abacaxi é nomeado, pelos estudiosos gastronômicos do país, como sendo um produto tipicamente paraibano. “O abacaxi é oficialmente a fruta símbolo da Paraíba” (WILLS, 2006,p.33), entretanto esse produto é consumido em quase todas as regiões do Brasil, embora ele se represente diferentemente em cada uma delas. Para o paraibano, em particular, esse produto é símbolo de identificação, pois faz parte de uma memória discursiva já pré-estabelecida que envolvem fatores sociais e econômicos. Woodward (2000, p.40) diz que: Se quisermos compreender os significados partilhados que caracterizam os diferentes aspectos da vida social, temos que examinar como eles são classificados simbolicamente. Assim o pão que é comido em casa é visto simplesmente como um elemento da vida cotidiana, mas quando especialmente preparado e repartido na mesa da comunhão, torna-se sagrado, podendo simbolizar o corpo de Cristo. Portanto, ao examinar um dado sistema de representação, precisamos analisar essas representações numa relação cultural e simbólica, pois um mesmo símbolo vai ter significados distintos dentro de formações discursivas distintas. De acordo com Woodward (2000, p.17): “É por meio dos significados produzidos pela representação que damos sentido à nossa experiência e aquilo que somos. Podemos inclusive sugerir que esses sistemas simbólicos tornam possível àquilo que somos e aquilo no qual podemos nos tornar”. Os sistemas de representação e os discursos constroem os lugares em que os sujeitos podem se posicionar e falar, ou seja, os sistemas de representação e os discursos vão inserir um sujeito em uma formação e uma prática discursiva específicas. Já em relação ao discurso do Outro, ele é pensado como algo de fora, exterior, embora crucial na construção da identidade, por exemplo, “ser paraibano” só tem significado se pensado numa rede de expressões negativas que vai dizer que não sou carioca nem mineiro. Tomaz Tadeu (2000) explica que a partir de um momento que um sujeito afirma a identidade dele, automaticamente ele nega, exclui outras identidades, pois o reconhecimento e a normatização de uma determinada identidade inferem um conjunto de expressões negativas em relação às outras representações, isto é, a afirmação da identidade e a marcação da diferença implicam sempre, as operações de incluir como a de excluir, “dizer o que somos significa também dizer o que não somos (nós/eles). Essa demarcação de fronteiras supõe e ao mesmo tempo, afirmam e reafirmam relações de poder. “Nós e eles neste caso não são simples categorias gramaticais, mas evidentes indicadores de posições-de-sujeitos fortemente marcados por relações de poder” (p.82). Enfim, buscar a identidade pela alteridade, marcação de diferença significa buscá-la sempre na dicotomia, nós/eles, na relação de inclusão/exclusão.
3. ANÁLISE DO CORPUS
Para apreender alguns traços identitários do “homem” paraibano em um determinado momento histórico, propomos fazer uma análise de uma prática tão antiga quanto necessária, ou seja, o ato de comer. Para tanto, buscaremos responder nossas questões através do corpus a ser analisado neste trabalho. Trata-se de uma propaganda turística oficial, que traz o discurso culinário paraibano., encomendada pelo governo do estado da Paraíba à revista Engenho da Gastronomia (2004, p.23) Escolhemos trabalhar com o gênero discursivo propaganda porque, indiscutivelmente, percebemos que ele é um instrumento social que integra nosso cotidiano, pois ele não apenas tenta persuadir o individuo a comprar o produto anunciado, como também, afeta nossas práticas, comportamentos e condutas. Entender o discurso da propaganda é compreender que ele não é transparente, mas espesso, denso, sinuoso, cheio de estratégias de sedução, onde faz um jogo do verbal com o não verbal, trazendo significações nas entrelinhas, no dialogo com o Outro, isto é, significações atravessadas por outras formações discursivas, outros textos, outros discursos, enfim, com a dimensão sócio histórica que o constitui. E para interpretá-lo, é preciso sempre extrapolar o nível da superfície textual. Num primeiro momento de nossa análise faremos uma descrição da propaganda escolhida para este estudo. Como já dito, trata-se de uma propaganda turística oficial, encomendada pelo governo do estado, que vem ilustrando um prato tipicamente paraibano, o “RUBACÃO”. A imagem (linguagem não-verbal) une-se a outros enunciados de ordem verbal, vejamos com eles são disponibilizados. A imagem do prato (rubacão) e seus acompanhantes (manteiga da terra, pimenta e cachaça) vêm centralizada, com cores fortes e bem vibrantes, os enunciados verbais: “Quem criou esta delícia deu este nome para não dividir com ninguém” se encontra na margem esquerda superior da página, no lado esquerdo está a logomarca do governo do estado: “Governo da Paraíba”. Abaixo, na margem esquerda, encontra-se a lista de ingredientes com o qual é feito o prato, sendo essa complementada pelo seguinte enunciado: “feijão-verde, arroz, queijo coalho, nata e charque. Na Paraíba, os ingredientes mais simples se transformam em receitas de dar água na boca.” Nesse último enunciado estamos diante do gênero propaganda , constituído sobre a forma de outro gênero: lista de ingrdientes Já na margem esquerda está o enunciado “Paraíba dá gosto conhecer”. Na busca dos significados é necessário vê esse conjunto de enunciados, verbal e não-verbal, como complementares. Faremos nossa análise a partir de duas hipóteses: a primeira nos leva a crer que na propaganda analisada circula duas formações discursivas diferentes: uma que diz respeito ao turista nordestino, que reconhece no prato apresentado na propaganda suas particularidades gastronômicas, e outra que diz respeito ao turista de fora do Nordeste, o qual é convidado a conhecer o desconhecido, o novo. Uma outra hipótese é que a propaganda ao tentar vender o espaço paraibano, por meio de sua culinária, reforça a identidade nordestina paraibana pelo viés interdiscursivo culinário. Na propaganda lê-se: “feijão-verde, arroz, queijo coalho, nata e charque. Na Paraíba, os ingredientes mais simples se transformam em receitas de dar água na boca; de um lado, do outro, “Paraíba dá gosto conhecer”. Os jogos enunciativos que a propaganda faz com as palavras unem-se ao não verbal (imagético) e inserem em uma formação discursiva voltada para o turista, tanto nordestino quanto de outras regiões do Brasil e internacional. A propaganda explora o enunciado “Paraíba dá gosto conhecer”, atribuindo significados diferentes a um mesmo vocábulo. “Gosto” de sentir prazer em conhecer o estado Paraíba e “gosto” referindo-se ao bom paladar da comida paraibana, com o objetivo de atrair, persuadir o turista, que ainda não conhece nem o estado nem a culinária paraibana, a vim conhecer o estado paraibano e desfrutar de sua deliciosa culinária. Já em relação ao turista nordestino, a propaganda usa como estratégia de persuasão, um prato tipicamente nordestino, mas especificamente paraibano que vem acompanhado de iguarias também tipicamente nordestinas, causando assim o efeito de empatia entre o nordestino (paraibano) e o produto anunciado. O que permite ao homem nordestino-paraibano, por meio dos interdiscursos, resgatar valores sócio-culturais peculiares de sua prática social, pois os produtos com os quais o paraibano se depara, são produtos plantados ou fabricados na sua própria terra “com o suor do seu próprio povo”, o que os torna mais barato e acessível. O fejão-verde, a cachaça a manteiga da terra, o charque, o queijo coalho, a nata representam simbolicamente no discurso culinário dentro da propaganda turística, traços identitários do homem paraibano, e mais especificamente, do paraibano sertanejo por eles (produtos) estarem há muito mais tempo inserido em sua prática culinária. Entretanto, as marcas discursivas que identifica o paraibano na propaganda são ressignificadas, pois se observarmos na ilustração percebemos que o “prato” passou por um “acabamento estético”, agregando valores diferentes do estabelecido no passado. O rubacão,que antes era comida rústica, “pesada”,símbolo de representação apenas sertaneja, hoje passou a ser símbolo de representação paraibana, pois é reconhecido como comida tipicamente paraibana, e a cachaça, uma das iguarias que acompanha o prato, bebida que antes só consumida pelo nordestino pobre (agricultores, cortadores de cana), hoje passou a ser símbolo de identidade nacional. É interessante notar as relações de redes de memória que se entrelaçam nesse texto de propaganda turística. Por um lado objetiva atrair o turista, por outro, faz uma alusão à memória local através do discurso culinário. Essa reinserção dessas redes de memória na atualidade ressoa no consumidor paraibano, causando um efeito de empatia, de identificação. Segundo Hall (2000) é num suposto e autêntico passado que procuramos validar as identidades, embora esse passado seja ressignificado no presente, pois se considerarmos que diferentes contextos sociais ou diferentes formações discursivas fazem com que nos envolvemos em diferentes significados sociais. Precisamos considerar diferentes identidades envolvidas em diferentes ocasiões. Neste contexto especifico da propaganda analisada o sujeito se identifica porque sua posição é de um sujeito que nasceu e “cresceu” na Paraíba, isto é, sua posição enquanto sujeito paraibano ao se deparar com a propaganda, reconhece de imediato, através de uma memória discursiva, uma prática social especifica de um grupo ao qual ele se insere. Portanto as identidades são as posições sociais que o sujeito é obrigado a assumir na sociedade e são construídas pela alteridade. Na nossa análise trabalhamos com essa relação de alteridade, a noção de construção do sujeito em relação ao outro, no intuito de evidenciar que é na relação com o Outro, com o exterior que são construídos os processos de identidades. Foucault “pensa o sujeito como objeto historicamente constituído sobre a base de determinações que lhes são exteriores” (REVEL, 2005, p.84). Todavia, nesta propaganda, o sujeito só se identifica no discurso culinário paraibano apresentado porque existe um outro discurso gastronômico diferente do paraibano, ou seja, no discurso culinário os traços identirários se constroem pelo diferencial de cada estado, o rubacão da Paraíba, o acarajé da Bahia, o jerimum de Pernambuco, o caju do Ceará, o maçunin de Alagoas. A identidade “ser paraibano” não pode, ser compreendida fora de um processo de produção simbólica e discursiva em que o “ser paraibano” se significa por si só, a identidade paraibana carrega em si mesma, o traço do outro, da diferença – “não sou pernambucano”, “não sou cearense”, etc.. Tomaz Tadeu (2000) concebe que a identidade e a diferença se traduzem assim, em declarações sobre quem pertence e quem não pertence, sobre quem está incluído e quem está excluído. Essa demarcação de fronteiras, essa separação e distinção, supõem e, ao mesmo tempo, afirmam e reafirmam relações de poder, pois todas as práticas de significação que produzem significados envolvem relações de poder, incluindo o poder para definir quem é incluído e quem é excluído. Portanto, o texto escolhido para análise ao apresentar uma culinária tipicamente nordestino-paraibana faz uma relação de inclusão e exclusão. No momento em que o sujeito se representa simbolicamente pelas suas particularidade ele automaticamente exclui os símbolos que não lhes são representativos, por exemplo, ao afirmar o rubacão como prato tipicamente paraibano, nego outros que não fazem parte de minha gastronomia. “A identidade é na verdade relacional, e a diferença é estabelecida por uma marcação simbólica relativamente a outras identidades” (WOODWARD, 2000, p.14) Por fim, as marcas discursivas no texto de propaganda turística nos leva a conclusão de que, ao tentar convencer o turista para obter fins lucrativos, ao mesmo tempo, representa simbolicamente o “homem paraibano,” agregando valores políticos econômicos e sociais com os quais o sujeito paraibano se identifica.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Compreender os significados na propaganda é fascinante, porque ela é um fenômeno essencialmente social. Por meio de sua análise é possível vislumbrar a história, os costumes e valores de uma dada sociedade. Entretanto a propaganda não só reproduz um momento social, mas também posiciona o individuo em um contexto especifico. Portanto, discutir a identidade paraibana através dos textos de propaganda turística que trazem um discurso culinário paraibano numa perspectiva discursiva e sob o enfoque teórico da Análise do Discurso francesa nos leva a pensar a identidade como uma forma de colocar o sujeito inserido num contexto social cultural específico. Trabalhar a identidade nessa perspectiva é relevante porque com os avanços tecnológicos dos meios de comunicação várias culturas são postas em interconexão, fazendo com que as identidades antes estáveis, fixas, tornem-se cambiantes, móveis, estando em “processo de construção”. Daí a necessidade de compreender a identidade de um sujeito inserida em seu lugar, no interior de formações e práticas discursivas especificas. É importante ressaltar que não há como discutir identidade, sem falar em alteridade, porque o sujeito não se constrói por si só é preciso colocá-lo em relação ao outro, não há “nós” sem o “outro”. Portanto identificar o sujeito a partir do que ele come, significa colocá-lo em relação ao que ele não come. Por fim o trabalho com a identidade através de uma prática específica, a culinária, nos leva a perceber o quanto é fascinante discutir um assunto tão importante e essencial para a sobrevivência humana. Levi Strauss (1966), ao desenvolver um trabalho sobre a representação do simbólico, diz que: assim como a língua é essencial para comunicação humana, à comida é essencial para sobrevivência do ser, e argumenta ainda que da mesma forma que nenhuma sociedade humana deixa de ter uma língua, nenhuma sociedade deixa de ter uma cozinha, pois em sua análise a comida não é “boa apenas para comer”, “boa também para pensar”, visto que ela é portadora de significados simbólicos e atua com significante cultural. Porém, concluímos que analisar a identidade por meio do discurso culinário de uma comunidade específica nos leva a crer que o consumo de alimentos pode dizer muito de nós, quem somos e em que cultura vivemos.
REFERÊNCIAS
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GREGOLIN, Maria do Rosário; BARONAS, Roberto (orgs.) – Análise do Discurso: as materialidades do sentido. 2.ed.São Paulo: Editora Claraluz, 2003. ___________. Análise do Discurso: entornos do sentido – Araraquara UNESP, FCL, Laboratório Editorial; São Paulo: Cultura Acadêmica Editora. 2001.
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LEAL, Wills; TRIGUEIRO; Carlos. Gastronomia como produto turístico: sabor Nordeste – Idéia, João Pessoa, 2006
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SILVA, Tomaz Tadeu; HALL, Stuart; KATHRYN, Woodward (org.) ; Identidade e diferença : a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis, RJ. Vozes, 2000. ORLANDI, Eni P. Análise de discurso: princípios e procedimentos. 6.ed. Campinas, SP: Pontes, 2005.
___________ .Interpretação: autoria, leitura e efeitos do trabalho simbólico. Petrópolis: Vozes, 1996.

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